Embora tenha lido bastante sobre as eleições municipais deste ano, este é um assunto que eu não pretendia avacalhar em babuinês. Pensava que descer a lenha contra este ou aquele candidato em conversas fervorosas de bar me bastaria. Não bastou. Um comichão – talvez saudade de um veículo e uma pauta na mão – me fez escrever aqui algumas considerações sobre a atual corrida eleitoral.
Se brasileiro tem memória curta, curte um populismo barato, define sua opinião com base em pesquisa eleitoral, vota por amizade, não se interessa por política, vende o voto etc., são especulações e, sinceramente, desculpas esfarrapadas para nós, que temos acesso à informação, não buscarmos saber o máximo possível sobre um candidato. Estas características existem sim, mas o que se deve levar em consideração é que este é um país com 14 milhões de analfabetos (Pnad 2007) e, convenhamos, este número não é real, principalmente se considerarmos o analfabetismo funcional, traço da maioria do eleitorado, creio eu. O brasileiro não tem acesso à informação de qualidade (sim, ela existe) e vende não só o voto, mas o corpo, a alma e, às vezes, até a vida por um prato de comida. Eu não estou pegando pesado. Dizer que a “massa” é burra, condicionada/direcionada, amorfa é fácil se quem supostamente tem conteúdo dá uma de Pilatos porque está muito bem, obrigado, achatado na classe média ou comprando muamba nas Daslus da vida. Não está tudo bem. O trânsito, a violência, a desinformação, a falta de educação e saúde, o desemprego, o crescimento desordenado/fragmentado/localizado das cidades, enfim, problemas, uma hora batem à porta de todo mundo.
Omissão é inaceitável, pelo menos para quem tem acesso à informação. Quem dirá por parte de quem a faz ou a pretende de maneira séria.
Portanto, para quem ainda pretende votar para vereador e prefeito nas próximas eleições, eu sugiro que dê uma olhada neste site.
http://www3.tse.gov.br/sadEleicaoDivulgaCand2008/Aqui você vai encontrar o que o seu candidato declara como “bens” e pode observar se o que ele
diz que tem condiz com o estilo ou forma de vida que ele leva, com o plano de governo e até com as diretrizes da sigla que ele
se diz fiel.Exemplo? Meu domicílio eleitoral é a província, Santo André. Lá, uma ex-professora minha, candidata à vereadora, dona de uma certa academia de rede – daquelas enormes, que prometem resultados em 45 dias, sabe? – atual esposa de um certo empresário que detém uma das maiores firmas de refeições prontas do país, pois é, ela mesma, se esqueceu de declarar inclusive, a academia. De onde virá o dinheiro da campanha? Da comidinha congelada do Pão-de-Açúcar? Nãããão.
Outro? Na mesma amada província uma tal candidata a vice-prefeita por aquele partido do Roberto Jefferson, do Collor, do Cãozinho dos Teclados, que supostamente luta pela causa trabalhista, declara mais de 12 milhões. Ela tem todo o direito de ser rica, mas R$15 mil em linhas telefônicas, em tempos de telefonia privatizada, soa suspeito. Há ainda o candidato de situação que detém 50% de uma Pajero. Espero que seja a parte da frente.
Aqui na Paulicéia a piada é ainda mais sem graça. Aquele que é o meu ícone na política, que defende o “estupra, mas não mata”, que faz viadutos de diamantes e que vai cobrir as marginais de pistas
freeway, o cara que segura a carreira política no carão e, admitamos, tem a maior cara-de-pau da história política deste país, sabe,né? Pois é, ele tem 6.589.650 (perdeu a conta?) ações de uma companhia de ferro e aço que valem R$0,1. Segundo a declaração, a empresa faliu. Ele tem ainda 4.223 cotas de uma sociedade de administração agrícola que valem R$0,83. Sim, ao todo. Total declarado? R$39.185.531,48. Deve ser tudo em frango, com o perdão do trocadilho de parentesco, me refiro à granja da família.
Para não ser injusta com meu ídolo, uma última contradição de uma candidata que adora aparecer em debates de bicicleta, mas que tem três veículos em seu nome. Um carro, duas motos.
O motivo deste post gigante é simples. O percentual de brasileiros com curso superior completo ou em andamento ainda gira em torno de 15%, segundo algumas destas pesquisas duvidosas. Se você pretende votar, procure o maior número de dados sobre o seu candidato e pense no que encontrou. Se você pode divulgar as informações que tem, divulgue. Não vai dar em nada? Eu ainda acredito que se eu mudar uma pessoa, esta pode mudar uma outra pessoa, que pode mudar uma terceira, que pode mudar a quarta... Veja, eu não estou fazendo apologia anti-voto e ninguém tem que (nem deve) pensar como eu. Mas eu acredito sim que a ação de uma pessoa faz diferença, de duas, da sociedade. Ainda mais quando se trata de transmitir informação, afinal, quem recebe esta informação absorve, reflete e age da forma como melhor lhe convier. Como profissional e estudante de Comunicação creio que minha função é fazer chegar a quem não tem a tal
Informação de Qualidade.
Estado sempre vai existir e, portanto, independente das ações que colocamos em prática individualmente como cidadãos, procuremos não eleger energúmenos para gerir nosso país.
Ele é nosso.